Botânica Retratos é ato poético-irreverente, afeito a interrogar e (a)colher mistérios das coisas do mundo, alheio a leituras finitas do que seja alegoria e recriação.  Onde está, como é, onde se esconde, como se desvela a estética da comunhão entre o humano e o natural, entre carne, ossos, auras e sementes, folhas, galhos, verdes, secos, fantasias? Seres humanos, animais, plantas e um anárquico grão de areia em meio a dunas incomensuráveis e brancas estariam, todos, interligados por algo inominável? Eis o que emerge em meio aos fundos negros fotográficos, análogos a uma noite escura de onde brilham os astros, o ensaio de 26 retratos apresentados pela artista visual e fotógrafa, Marília Vasconcellos.

A exposição insinua leituras e múltiplos desvelamentos, por meio da força expressiva e sensível da fotografia, sobre as conexões que poderiam interligar a vida das pessoas à vida das plantas, tanto pela diversidade quanto pela singularidade. Gregory Bateson, antropólogo e biólogo, inquieto em seus estudos sobre as conexões singulares que interligavam todos os seres vivos, em especial em Mind and Nature. A necessary unity (1980), confessou que, ao longo de sua existência guardou em duas caixinhas coisas distintas. “Coloquei as descrições de tijolos e de jarras, de bolas de sinuca e de galáxias numa caixinha, e ali deixei-as repousar em paz. Numa outra caixa, coloquei coisas vivas: os caranguejos do mar, os homens, os problemas de beleza e as questões de diferenças. É o conteúdo da segunda caixa que, a mim, interessa (1980, p.17)”.

O ensaio Botânica Retratos contempla esses vínculos entre os seres, plantas e pessoas, em suas múltiplas expressões e seu ato inaugural vem de uma chamada pública, provocada pela artista, convidando voluntários dispostos em serem fotografados. Responderam ao chamado 60 pessoas, as quais, em tempos diferentes, adentraram ao repertório sensível e loquaz de Marília Vasconcellos.

O conjunto de retratos que perfaz esta exposição de Marília Vasconcellos é uma alquimia a emoldurar mulheres e homens, transgêneros, negros, brancos, orientais e índios, albinos, crianças, gêmeos e casais em uma diversidade de espécie de plantas. Na lente da fotógrafa, olhos luminosos escolhem o seu foco. Ora, um fotografado mira o aparato, ora outro fixa a íris num ponto perdido no horizonte e há aqueles que se entregam ao observador, cerrando as pálpebras para o acaso. Marília Vasconcellos oferece um resultado que trilha uma concepção arraigada na pesquisa, considerando experimentos e observações acerca de plantas, reações emocionais e um conhecimento intuitivo de vínculo e laços entre seres vivos, de categorias outras. Para além do ato fotográfico, a artista se lança ao múltiplo fazer e toca uma linguagem que revisita o design e a cenografia, adicionando à criação os adornos e adereços, montados em corpos singulares durante sessões individuais com seus modelos vivos.

Ao adentrar a essa ecologia mixando espécies, a artista defronta-se com estados de vida e com as etapas da morte; o nascer, o morrer, a decomposição natural dos vegetais. Vizinho a esta janela perceptiva, o contágio com a ressuscitação, do morto no vivo, numa terminal elegia de acordes harmoniosos. Enquanto a aliança carnal entre a planta seca e o papel tece solidárias possibilidades de vestir emoções mortas-vivas, permanecem essencialmente pactuadas com a imagem e a insurreição de seres vivos ávidos em narrar segredos.

Fabiana Bruno, Curadora   

 

As plantas sempre estiveram presentes nos meus processos criativos, uma constante de cenários e paisagens. O ensaio BOTÂNICA Retratos teve origem nos meus estudos de linhas espirituais indianas, onde em meio às leituras conheci Boser, um botânico indiano que dedicou a sua vida ao estudo das plantas. Suas pesquisas se baseavam em experimentos e observações que fortaleciam a idéia de que as plantas possuiam reações emocionais diversas. Minha percepção de que as plantas vivas não podem ser simplesmente expropriadas de sua natureza me fizeram começar a elaborar uma série de manufaturas imagéticas usando plantas caídas; aquelas que já completaram o seu ciclo de vida e estão em processo de secagem e decomposição naturais.

Iniciei o trabalho com uma despretensiosa chamada pública que resultou em mais de sessenta inscritos, entre homens e mulheres, a maioria sem vivência como modelo fotográfico. Ao iniciar a seleção dos modelos para o ensaio que já itinera pelo Brasil e continua em processo constante de produção de mais imagens, busquei abrir o leque das alternativas e explorar essa magnifica variedade que nós humanos possuímos. Os retratos passaram a me apresentar um desafio permanente: trabalhar com diversas expressões de beleza, construindo pequenas esculturas botânicas que de alguma forma se enlaçavam com a personalidade de cada ser.

A experimentação com as plantas e a criação de adornos teve inicio há dois anos. Nesse período elaborei e experimentei diversas técnicas de selagem de plantas secas, secagem de folhagens e flores frescas e através delas fui percebendo que as nuances formais do material se mostraram com a ação do tempo e da técnica escolhida para a desidratação. Ao mergulhar na elaboração de adornos e adereços, expandi o meu experimento de linguagem unindo as plantas secas ao papel. Esses dois materiais, tão relacionados entre si, resultaram na descoberta de superfícies e elementos que ampliaram as minhas possibilidades criativas e narrativas, seja pela facilidade de adaptação dos materiais às distintas formas de expressão humana, seja pela liberdade formal que a maleabilidade dos elementos permite. A ergonomia dos adereços, por sua vez, passou pela assimilação das modelagens corporais, aliando entrincadas estruturas de arame soldado à simples presilhas e tiaras, moldadas pelos formatos dos cabelos e pelas posturas de cada modelo.

A exposição estreou em outubro no MIS Santos e segue para outros museus no período de 2018 e 2019, fazem parte da programação: Museu da Cidade em Campinas e Museu Bernardino de Campos em Amparo. Em seguida irá percorrer outros estados brasileiros, foi selecionada para compor o ciclo de exposições no Museu Regional de São João del-Rei e MIS Belo Horizonte, Minas Gerais, em novembro e dezembro de 2019. Aguarda o resultado de seleção nas cidades de São Paulo, Tiradentes, Ouro Preto, Florianópolis, Curitiba e Rio de Janeiro.

Marilia Vasconcellos, Fotógrafa